A multidão estava em êxtase. Aalegria era geral. Parecia haver um nivelamento entre os seres humanos, sem diferenças de nenhuma ordem. Todos pareciam igualmente felizes e maravilhosamente dopados pela estridente musica. O mundo os via pela TV. As demais nações do planeta se perguntavam: Mas que sociedade feliz e maravilhosa é esta que vive de festa? O que lhes trouxe tamanha igualdade e alegria de viver ? Seria esta a sociedade sonhada pela utopia da esquerda ? Uma avançada sociedade capitalista na qual todos são ricos? Ou a “nova terra” esperada pelas religiões ?
Enquanto a festa acontecia, e não acontecia outra coisa a não ser festa, um homem, um louco, da sacada de um prédio, gritava para multidão, obviamente sem ser ouvido, palavras de ordem: “Traidores! Vocês só se preocupam com festa! Há uma multidão oculta apodrecendo nos lixões e nas calçadas, famintas de tudo, nas prisões, nos sertões. Estão a sua volta e vocês não enxergam. São os seus irmãos invisíveis. A desonra e a corrupção como uma ratazana gigante, corrói o queijo verde e amarelo ! Eduquem-se, politizem-se ! Dêem um tempo neste banquete de pão e circo ! Vamos a luta!”
A festa continuava e do grande cavalo de aço as ordens vinham e o povo graciosamente ensaiava mais uma coreografia, numa obediência cega, religiosa. “A podridão da indiferença está maravilhosamente oculta sob o manto desta alegria fabricada” – gritou mais uma vez o louco da sacada. Mas porque aquele homem se enfureceu, se enloqueceu ? Porque, se ele morava na nação mais alegre e festiva do mundo ? Porque este discurso desentoado, diante de tamanha festa e alegria ?
Em suas mãos ele tinha um livro de Paulo Freire aberto numa página onde se lia: “Olhávamos de cima um braço de rio poluído, sem vida, cuja lama, e não água, empapa os mocambos nela quase mergulhados. ‘Mais além dos mocambos’, me disse Denílson, ‘há algo pior: um grande terreno onde se faz o deposito do lixo público. Os moradores de toda redondeza ‘pesquisam’ no lixo o que comer, o que vestir, o que os mantenha vivos’. Foi desse horrendo aterro, que há dois anos, uma família retirou de lixo hospitalar pedaços de seio amputado com que preparou seu almoço domingueiro.”
O louco queria uma revolta, exigia uma ação para dar fim ao mar de hipocrisia onde navegava os sonhos individualistas daquele povo. O louco não sabia que se a ordem para revolta viesse do cavalo de aço, a quem a multidão obedecia fielmente, o seu querer seria realizado.
(Para o amigo e colega Miguel Junior)
A multidão estavaem êxtase. Aalegria era geral. Parecia haver um nivelamento entre os seres humanos, sem diferenças de nenhuma ordem. Todos pareciam igualmente felizes e maravilhosamente dopados pela estridente musica. O mundo os via pela TV. As demais nações do planeta se perguntavam: Mas que sociedade feliz e maravilhosa é esta que vive de festa? O que lhes trouxe tamanha igualdade e alegria de viver ? Seria esta a sociedade sonhada pela utopia da esquerda ? Uma avançada sociedade capitalista na qual todos são ricos? Ou a “nova terra” esperada pelas religiões ?
Enquanto a festa acontecia, e não acontecia outra coisa a não ser festa, um homem, um louco, da sacada de um prédio, gritava para multidão, obviamente sem ser ouvido, palavras de ordem: “Traidores! Vocês só se preocupam com festa! Há uma multidão oculta apodrecendo nos lixões e nas calçadas, famintas de tudo, nas prisões, nos sertões. Estão a sua volta e vocês não enxergam. São os seus irmãos invisíveis. A desonra e a corrupção como uma ratazana gigante, corrói o queijo verde e amarelo ! Eduquem-se, politizem-se ! Dêem um tempo neste banquete de pão e circo ! Vamos a luta!”
A festa continuava e do grande cavalo de aço as ordens vinham e o povo graciosamente ensaiava mais uma coreografia, numa obediência cega, religiosa. “A podridão da indiferença está maravilhosamente oculta sob o manto desta alegria fabricada” – gritou mais uma vez o louco da sacada. Mas porque aquele homem se enfureceu, se enloqueceu ? Porque, se ele morava na nação mais alegre e festiva do mundo ? Porque este discurso desentoado, diante de tamanha festa e alegria ?
Em suas mãos ele tinha um livro de Paulo Freire aberto numa página onde se lia: “Olhávamos de cima um braço de rio poluído, sem vida, cuja lama, e não água, empapa os mocambos nela quase mergulhados. ‘Mais além dos mocambos’, me disse Denílson, ‘há algo pior: um grande terreno onde se faz o deposito do lixo público. Os moradores de toda redondeza ‘pesquisam’ no lixo o que comer, o que vestir, o que os mantenha vivos’. Foi desse horrendo aterro, que há dois anos, uma família retirou de lixo hospitalar pedaços de seio amputado com que preparou seu almoço domingueiro.”
O louco queria uma revolta, exigia uma ação para dar fim ao mar de hipocrisia onde navegava os sonhos individualistas daquele povo. O louco não sabia que se a ordem para revolta viesse do cavalo de aço, a quem a multidão obedecia fielmente, o seu querer seria realizado.
(Para o amigo e colega Miguel Junior)