As indústrias e os canais de distribuição

27 de fevereiro de 2010 por Zé do Mundo

Estive recentemente na Convenção da  Coniexpress S.A. (fabricante da marca QUERO e líder nacional no seguimento) , um grande evento nacional que acontece anualmente e que tem por objetivo a  premiação de  representantes, distribuição de  prêmios de incentivos pelas vendas alcançadas, apresentação de  lançamentos e metas para o ano de 2010.

Tive a grata oportunidade de rever colegas e amigos representantes, todos muito bem comprometidos, mas com uma preocupação rondando no ar: a concorrência dos grandes e multinacionais atacadistas cada vez mais crescente, de certa forma atrapalhando o trabalho de cada  um em sua região.

Obviamente  a globalização, que  tem ao meu ver o seu lado cruel, é quem nos coloca nesta situação enquanto representantes. Não só a Quero como muitas empresas nacionais, vem vivendo este dilema de como equilibrar a distribuição de seus produtos pelas vias de abastecimento existentes:  varejistas e/ ou atacadistas. É claro que o ideal seria a horizontalização do processo de vendas e  por conseguinte  o alcance a um numero substancial de varejistas, o que me  parece ser  mais seguro para as industrias. Mas como renunciar ao aumento crescente do volume de compras destes gigantes ?

Acredito que deveríamos sim , ter como meta o  varejo, mas também fortalecer as nossos distribuidores regionais, empresa brasileiras que sempre prestigiaram as nossas industrias, as nossas marcas.

 A (“mardita”) globalização pode decretar a morte de muitos atacadistas e mais um numero sem fim de lojas de médio porte (aqui no nordeste – entre 3 e 10 chek-outs). O Carrefour anunciou investimentos nunca anteriormente feitos no Brasil e a sua meta são as classes C, D, E e assim por diante (reflita sobre o que vem por aí..)

Como vivo quase na contra-mão do pensamento comum robotizado pela mídia, acredito como, homem  e representante por profissão que, ainda que  não tenhamos como resolver a questão, devemos pensar sobre ela na busca de uma solução que venha salvaguardar a existência desses milhares de pequenos e médios estabelecimentos  que amparam  brasileiros e sua famílias, dando-lhes muito mais emprego que os gigantes.

XXIII – A floração dos umbuzeiros

27 de fevereiro de 2010 por Zé do Mundo

Depois de tocar a campainha várias vezes, o rapaz já ia desistindo quando abriu-se a porta da casa.

- Pois não?

- É aqui que mora Seu Genário?

- Sim, sou eu mermo. Pode dizê.

- É que eu fui colega de Climério lá na construção e vim saber noticias dele. A turma lá gostava muito dele. Seu Tõe Grande mandou lembranças.

- Ele tá bom. Só num tá mio pruque a mãe dele morreu otro dia. Morreu também uma amiga da famía chamda D. Dozinha. Lá no sertão tá uma morredêra doida de gente.

- O senhor sabe dizer se ele vem mesmo pra cá ainda?

- Quá… vem não. Conde ele saiu daqui dessa veiz foi disposto a num vortá mais.

- Tá bom Seu Genário. Outro dia eu apareço pra gente bater um papo, brigado viu?

O rapaz despediu-se, montou na sua moto e tomou a rua que dá acesso à marginal. O domingo estava findando e a segunda-feira já vinha vociferando sua correria na grande cidade de São Paulo.

O movimento já era intenso naquela construção, apesar de estar muito cedo. Fazia frio e havia muita neblina. O céu turvo impedia parcialmente a claridade do sol, passando a impressão de que  já estava para se por.

- Tõe Grande! Tive lá na casa do Seu Genário procurando notícias do Climério.

- E aí…?

- Ele num vai vim mais pra São Paulo, não. Seu Genário disse que ele tá bom mas muito triste porque perdeu a mãe. Disse que tá morrendo muita gente lá no sertão. Morreu também uma amiga deles…  uma tal de Dozinha Parteira…

O chão se abriu sob os pés de Boi, conhecido em São Paulo como Tõe Grande. O mundo desabou sobre ele.

- Tõe, cê tá sentino alguma coisa?

Boi, nada respondeu, tomou o elevador e foi para a última laje da construção, onde costumava ficar olhando a cidade em silêncio. Sentou-se na extremidade da viga, de forma que seus pés ficavam soltos e sem nenhum apoio. Retirou da sua velha carteira duas fotos que guardava com muito zelo. Uma era de Dozinha, sua mãe; a outra era de Joaninha, a mulher a qual amara em silêncio por toda sua vida. Sim, tirara uma das fotos que o “Onoro das chapa” mandara entregar, um dia antes, daquele fatídico dia em que se tornou um criminoso. Beijou as fotos enquanto corriam-lhe na face duas lágrimas de dor e de adeus a este mundo. Guardou-as novamente e precipitou-se daquelas alturas, dando cabo a sua vida.

Mesclada de fumaça e neblina a cor de São Paulo naquela manhã era fúnebre. Lá em Riachinho, ao contrário, o céu estava limpo e o sol ardia. Destacava-se na vegetação da caatinga o verde dos umbuzeiros em floração.

FIM

XXII – A tristeza

27 de fevereiro de 2010 por Zé do Mundo

Climério bateu na portinhola da casinha simples. Ninguém atendeu. Ele gritou:

- Mãe, sou eu, Climério, seu fí… abre aqui. Cheguei mãe… vortei!

Nada. Ninguém lá dentro. Nenhuma resposta. Climério forçou a porta e adentrou procurando por sua mãe e a encontrou desfalecida próxima a sua cama no seu quarto. Tomou-a nos braços, balançando o seu tronco:

- Mãe! Responde, Mãe!!!

Ela murmurou:

- Meu fí, pega uma vela… tráis, tô ino pontá teu pai…

- Não, mãe… num fala assim não. Eu vô buscá ajuda.

Não deu tempo. D. Joaninha cerrou os olhos e expirou. Morreu nos braços do seu querido filho Climério. Ela tinha deixado cair no chão a sua caixinha de madeira e várias fotos estavam espalhadas no quarto. Entre elas, três fotos do seu noivado com Zequinha, seu finado esposo. Aquela manhã estava clara e havia muito canto de pássaros nas copas dos umbuzeiros floridos. D. Joaninha se fora, tal como a brisa que vem e vai. Suavemente se esvaiu nos braços do seu primogênito. Ela estava doente há apenas três meses.

A noite não estava muito quente pois era tempo das invernadas e tinha chovido muito no dia anterior. Na sala da simples casa, a sentinela, ou seja, o velório de D. Joaninha transcorria quase silencioso, com um pranto contido dos seus parentes e amigos. Servia-se café, chá e biscoitos de polvilho. Climério não permitiu servir cachaça e avisou que se alguém tivesse fome aguardasse um pouco que logo sairia uma “jantinha” para os presentes.

Na frente da casa foi acesa uma fogueira, como aquelas de São João, bancos ao redor de onde algumas pessoas conversavam.

- Cumé qui foi isso Tõe?

- Sei não. Só sei qui Joaninha morreu nos braço do fí mais véi.

- Eles é en trêis, né?

- É. Um home e duas muié. Tudo já casado e cuns fí já grandim.

- É… finado Zequinha num teve a sorte de vê os neto…

- E agora Joaninha foi sincontrá cum ele lá no céu…

- É Tõe… tá ino simbora nossos amigo véi tudo.

- É isso mermo. Daqui uns tempo nóis tá tudo lá.

- Vira essa boca pra lá ome!

A noite estava fresca e o céu maravilhosamente enfeitado de estrelas como que anunciando o encontro de Zequinha e Joaninha no paraíso. No dia seguinte ela seria sepultada no mesmo lugar onde Zequinha descansava.

XXI – O retorno

27 de fevereiro de 2010 por Zé do Mundo

Da janela, Maria Clara avistou bem ao longe, um homem na estrada, vindo na direção de sua casa. A imagem trêmula desfigurada pelo calor que subia do chão, a impediu de reconhecer quem era, imediatamente. Mas logo, seus olhos brilharam e o seu coração começou a bater mais forte.

- Flosina, Mané Pêdo… Lixandre, vem cá… oia lá! Aquele é seu pai num, é? – Gritou ela.

Ela estava certa. Climério que vinha marchando rápido, apesar do cansaço, começou a correr. Ela e os meninos saíram ao encontro dele em disparada. O cachorro também acompanhou. Era um novo cão mas com o mesmo nome: “Leão”.

Climério abraçou todos de uma vez. Num gesto que nunca fizera antes, beijou os filhos, afagando-lhes os cabelos. Tomou Maria Clara nos braços, suspendeu-a e rodopiou com segurança até ficar tonto.

- Pai vortô meus fí… Mais num vim buscá ocês não. Eu vim pra nunca mais ir simbora. Meu lugar é aqui cum ocês. E se um dia eu dizer de novo qui quero ir simbora pra qualqué lugar , num deixa eu ir não qui eu tô doido.

- Cê viu como a caatinga ta bunita? Tá tudo verdim e farturento, Climero. Nós plantou mi, feijão, abroba , melancia, andu…

- Bonito mermo tá os pé de imbu… êta floração arretada!

Alexandre pegou a mochila do pai, as meninas ajudaram pegando as sacolas. Entraram festivos na casa. Ele foi logo abrindo a mochila e distribuindo pequenas lembrancinhas para cada filho e para a esposa um vestido verde com florzinhas brancas e amarelas.

- Esse vestido num parece a cor dos imbuzeiro na floração?

- Parece…

- Pois é, pensei nisso conde comprei. Isprementa aí e vê se fica bom

Maria Clara foi lá dentro, vestiu o tal vestido florido e veio até a salinha da casa. Ao vê-la, Climério ficou boquiaberto.

- Cê tá mais bonita qui um imbuzeiro florido no mêi da seca.

Maria Clara que estava sorridente, fez uma pausa em sua alegria e falou com seriedade :

- Sua mãe, cê tá sabeno? Tá muito doente…

- Eu tô sabeno. Tio Genaro falou pra ela ir pra lá fazê um tratamento.

- Ela foi em Santa Maria. Lá tava teno uns médico inzaminando o povo e…

- Esses médico num sabe de nada, num tem apareiage. Eles vem aqui nas carrêra de veiz em quando. Vô lá amanhã falar cum mãe pra ir simbora pra Son Palo cuidá da saúde.

- Também é bom cê sabê qui D. Dozinha morreu.

- Oxente, qui dia?

- Faiz quinze dia.

Eles ficaram juntos naquela tarde. Os meninos perguntando coisas sobre sua viagem a São Paulo e falando da Escola, da professora, dos postes de luz que já estavam próximos de Riachinho. Eles caminharam em pouco tempo toda a propriedade. Nada mudou, exceto pela cor do pequeno pasto e das plantações, que estavam bem verdinhas.

- Eu vou comprar uma vaquinha pra nóis ou pelo menos uma cabra e umas galinha. Vamo proveitá essa invernada. Deus bençuou e mandô chuva pra cá. Agora nóis tá seguro. O feijão tá vingado e os outro mantimento também. -  Falou Climério para os seus.

As nuvens estavam com boa formação. No fim daquele mesmo dia choveu intensamente. O córrego periódico do Riachinho, de água amarelada, começou a correr pelo seu leito arenoso. A paisagem agora em nada se parecia com aquela que Climério deixara há uns meses.

XX – A retirada

27 de fevereiro de 2010 por Zé do Mundo

Climério teve alguns encontros com Boi no decorrer daqueles três meses… Não conseguia, no entanto, descobrir quase nada da vida dele, desde que saiu de Riachinho. Sabia apenas com certeza, que ele continuava só, sem família, sem ninguém e mantinha sua introspecção, seu silêncio. Cumpria ordens que lhe eram dadas e as executava sem questionar desde sua infância. Geralmente era chamado para tarefas que mais dependiam de força física.

Apenas em duas ocasiões falou, por telefone com os seus familiares e por carta enviou-lhes algum dinheiro. Jamais revelou nada a alguém sobre Boi e o seu paradeiro.

Definitivamente, Climério não ficaria mais em São Paulo. Como dizia ele “Son Palo num é mais qui nem uns tempo atráis… A gente num tem sirviço e isso aqui virou as brenha dos inferno. Vê tê qui ir simbora.”

Era setembro e a manhã estava linda apesar da poluição da cidade. Enquanto arrumava as suas coisas de viagem, Climério sonhava com sua terra. Ah…! Tudo devia estar melhor, Maria Clara lhe falara que “as chuva dos imbu deixou os imbuzeiro tudo bonito e a floração tá grande – vai ter fartura”.

- Cê vai vortá mermo, Climério?

- Vô, Tio Genaro. Tô morreno de saudade dos fí e da muié , do meu pedacim de chão…

- Dessa veiz cê num demorou nada, né? Só ficou aqui trêis mêis…

- É tio… mas as coisa mioraro por lá. E aqui a coisa num tá mais qui nem antes.

- E sua mãe? Miorou?

- Maria Clara falou qui ela tá miozinha. Ta tomano uns remedo do mato lá…

- Quá… Se ela tiver fortinha manda ela vim pra cá tratar aqui.

- Tá bom, tio. E o sinhô? Quando vai sair por lá?

- Num sei meu fí… num sei. A vontade é muita… mais Deus num vai deixá eu morrê aqui não. Eu vorto… um dia eu vorto nem qui seja pra morrê lá…

Seu Genário desviou seu olhar para evitar que Climério percebesse lágrimas nos seus olhos. Ele tornara-se um homem triste e doente. Sua doença era difícil de ser curada pois a sua alma estava acorrentada, sem chance de mudança. Sua esposa, depressiva, em nada parecia com aquela mulher forte e trabalhadeira daqueles tempos lá no sertão. Seus filhos se transformaram em feras que não lhe davam nenhum gosto. E aquela cidade que o acolhera e o beneficiara com trabalho, trouxera-lhe apenas o progresso material, roubando-lhe no entanto o seu bem mais precioso: sua família. Ele era um homem só e cada vez mais ia se tornando como D. Florilda. Olhar perdido no horizonte, silencio, lágrimas, pensamentos,  saudade de tudo… de todos… de antes. 

- Tio, tia, inté. Deus que ajude ocês por tudo qui ocês fizero. Despedi de Dolores onte. Ela disse qui ia manhecê o dia na igreja e qui quando vortasse num dava tempo me ver mais. Dá lembrança Nalvinha e os minino.

- Manda notíça, Climero… Ah! Eu isqueci de te falar. Otro dia vêi aqui um rapaiz e disse qui é colega seu e vei a mando de Tõe Grande. Ele ficô de vortá dispois. Cê sabe quem é esse tal de Tõe Grande?

- Sei… é um colega lá da construção. Se ele vortá aí o sinhô fala qui eu viajei mais vou mandá notiça de vez em quando.

Climério olhou para trás mais uma vez e acenou para Seu Genário e D. Florilda , dando adeus àquele lar conturbado, mas, que o acolheu com amor por aquele breve tempo. Os idosos se olharam, entraram, fechando com um cadeado o portão da frente.

São Paulo ficou para trás. Se dependesse da vontade de Climério ele não mais voltaria lá, a não ser para passear. Trazer mulher e filhos pra morar, jamais.

XIX – A saudade

27 de fevereiro de 2010 por Zé do Mundo

Em meio a tanta gente, apesar de estar trabalhando no mesmo bloco que Boi, Climério não conseguiu localizá-lo. O dia rompeu e se foi sem que ele conseguisse um novo contato.

Para ele, a maior alegria era encontrar um conterrâneo ou um conhecido naquela terra de ninguém. Saiu indagando até conseguir informação. Boi não viera trabalhar naquele dia.

A noite, ao retornar do trabalho, aproximando-se da casa , notou um grande numero de pessoas na porta, corre-corre, ambulância, polícia… Ele apressou-se entre os curiosos e vizinhos até alcançar a sala. Um homem estava sendo socorrido por uma junta médica – era Seu Genário, que fora esfaqueado por um dos seus filhos: o Daltro. Havia gritos e choro, de D. Florilda e Dolores, desesperadas… incontroláveis.

- Foi Daltro! Ô Jesus! Ele tava drogado… Gritava Dolores enquanto D. Florilda recostada no sofá e passando mal, recebia ajuda das enfermeiras e dizia entre soluços e falta de ar:

- Ô meu Deus! Cumé qui isso pôde cuntecê? Eu num mereço… eu num mereço…

A luz vermelha da ambulância, girando com seus feixes de luz, iluminava o rosto de Climério, revelando-lhe os olhos arregalados e horrorizados com a situação. Agora já fora do ambiente e procurando ver Genário, tentava chegar até ele, mas a polícia o impedia e ainda o interpelava:

- Eu vi o senhor lá dentro da casa. O senhor é parente da família?

- Sim, sou. Sou casado cum a subrinha de S. Genaro…

- O senhor conhece bem o Daltro?

- Bem… quando a gente era menino lá….

- Não quero saber de passado! – Interrompeu o homem rispidamente.

- Quero informações sobre o Daltro. De onde ele poderia estar agora! – Berrou ainda mais alto o policial.

Embaraçado, Climério começou a tremer e falou:

- Tem poucos dias qui eu cheguei e ainda num tive cum ele.

Dolores gritou de lá:

- Climério! Vamo mais eu no Hospital! Ô seu guarda, esse aí é primo meu e tem poucos dia qui chegou do nordeste. Ele num é da marca de Daltro não. É trabaiador.

Não foi grave o caso de Seu Genário e dois dias depois ele já estava em casa recuperando-se da pequena cirurgia que fizera.

Climério estava oprimido pelos fatos e pelo desencanto de ver a família de Genário naquela situação. Já não tinha certeza se traria a sua família para aquele mundão. Comparava a vida de lá e de cá. E pensava… e pensava… até perder o sono: “Dolores tá doida cun essas coisa de crente, num credita mais nos santo. Tia Florilda tá qui nem Boi, calada. Só fala se a gente preguntar qualquer coisa. Daltro e Vaninho viraro uns bicho qui a poliça quer pegar e Nalvinha, sumiu nas parambeira , derna qui tô aqui ainda num vi. Tio Genaro quer ir simbora mas num pode… ta qui nem preso… e se Deus me livre e guarde, eu troxer meus fí e a muié e a coisa disandar qui nem ta nessa casa?”

Climério rezou dois “pai nossos”, duas “ave-marias” e pediu a Deus sono. A madrugada estava fria, o tempo caminhava a galope e lhe traria mais um dia, de trabalho duro, de dúvidas e saudade, muita saudade de sua terra e dos seus.

XVIII – O reencontro

27 de fevereiro de 2010 por Zé do Mundo

Antes de seis horas da manhã todos da casa já haviam tomado café e Climério já estava novamente pronto para “correr trecho” em busca de trabalho. Dolores apanhou sua inseparável Bíblia, despediu-se do pai e da mãe. Chegando para Climério, falou:

- Que dia cê quer ir na minha igreja? Tô ino pra lá agora.

- Qualqué dia, Dolores. Por inquanto preciso achar trabái. Preciso rodar por aí. Cê viu onte deu na televisão que ta fartano emprego?

- Apega com Jesus que ele vai lhe mostrar o camim…

- Tô apegado cum Ele e tudo conté santo…

Dolores insistia na sua pregação, que mais era uma encheção de saco no juízo de Climério. Ele para retaliar fazia questão de deixar patente a sua fé inabalável nos santos. Desta forma, toda vez que eles se encontravam, uma discussão se iniciava. Embora nunca chegassem a um acordo, porque a religião separa pessoas ao invés de uni-las, eles mantinham o debate em bom nível sem maiores problemas, mas cada um na sua defesa.

Semanas depois, indicado por amigos do Seu Genário, Climério se dirigiu para um grande canteiro de obras, no qual construíam-se vários prédios. Pela sua grandeza, dava pra ver de longe o aglomerado de edifícios. Finalmente, lá ele conseguiu trabalho.

Pelas contas de Climério devia haver pelo menos duas mil pessoas trabalhando ali. Uma multidão. Um sobe e desce sem parar de material, misturavam engenheiros a pedreiros, ajudantes, soldadores, eletricistas, enfim, homens das mais variadas profissões e procedentes de várias partes do país se encontravam ali sob o ritmo frenético da São Paulo que não pode parar.

Após uns quinze dias de trabalho, aconteceu algo inesperado que Climério jamais poderia imaginar. O mestre-de-obras, o transferiu para o bloco B da construção e naquele mesmo dia, frio e cinzento, ao meio dia, na hora da bóia, o destino aprontou-lhe um  encontro surpreendente.

Um homem muito forte e grande, não tanto musculoso, mas realmente um gigante de mais ou menos cento e cinqüenta quilos e quase dois metros de altura, sentou-se, colocou o caldeirão no fogão improvisado, e aguardou silenciosamente até que fervesse aquele feijão com charque. Climério sentiu algo “familiar” naquela criatura gigantesca e aproximou-se. Tocou-lhe no ombro e disse:

- Eu acho que cunheço o sinhô…

O homem continuou olhando para o seu caldeirão com a sua “bóia”, como se não tivesse ouvido ninguém. Climério insistiu:

- Eu sou de Riachim… Monte Verde… Santa Maria.

- Num sei de nada qui cê tá falano – retrucou o homem.

- Mas eu lembro do sinhô… Meu nome é Climério. Eu sou fí de D. Joaninha.

Aquele nome, Joaninha, o incomodou, mudando-lhe o semblante. Ele virou-se vagarosamente, cuspiu um pedaço de fumo mascado no chão e apenas olhou rapidamente para Climério.

Climério então certificou-se que realmente o conhecia. Era Altamirando, sim , o “Boi”, aquele que fugira de Riachinho depois do assassinato. Naquele episódio, ele, então com dez anos, ouvira falar que o motivo da morte daqueles homens foi ciúme de Boi pela sua mãe. Já haviam se passado portanto quatorze anos do acontecido.

- Sua mãe é viva? Perguntou Boi com sua voz de trovão.

- É sim sinhô. Ela continua morano na merma casa. Ta lá no mermo lugazim.

- Hummmm.

- E o sinhô? Tá por aqui já faiz tempo, né?

- É…

- Dona Dozinha tá bem veinha. Parece qui tá caducano. Num ta cunheceno mais as pessoa. O sinhô sabia? o sinhô tem tido notiça dela?

- Não…

Boi jogou quase um litro de farinha de mandioca no caldeirão mexeu bem e começou a comer.

- Quer?

- Não sinhô, pode se servir. Eu acabei de cumê agora, nestantim.

Climério não quis perguntar mais nada a Boi pois sentia que o incomodava. Ele sabia que aquele homem era de pouquíssima conversa. Também não fez nenhuma referência ao passado, por medo da reação dele.

O apito soou chamando todos de volta ao trabalho. A tarde continuava fria. Boi subiu no Elevador e foi para o ultimo andar da construção.

XVII – A conversa

27 de fevereiro de 2010 por Zé do Mundo

No dia seguinte, depois de acomodado no quarto dos rapazes da casa, Climério pegou sua mochila, certificou-se que os seus documentos estavam em ordem, despediu-se do pessoal da casa:

- Vô correr trecho, sé devo vortá de noite.

Para aqui, para acolá, de construção em construção, nada de trabalho. Lanchonetes, bares, supermercados… nada.

Finda o dia e a noite iluminada da grande São Paulo brilha majestosa. Climério, no entanto, retorna ofuscado, mas esperançoso. Afinal de contas ele já estivera lá anteriormente e sabia que era uma questão de tempo. Logo estaria empregado. No caminho de volta ele pega o metrô e vai pensando: “Virge Maria, cada veiz mais Son Palo tá mais doido. E eu qui tô pensano em trazê meus fí e a muié pra cá…”.

Depois de tomar banho e jantar com a família, sentou-se com Dolores, a sua mãe D. Florilda e o seu Genário, pai, de frente a televisão.

- E aí Climério, achou trabái? – Perguntou Genário

- Inda não, cacei in tudo qui é lugar. Mas Son Palo é grande, amanhã vô girá por aí de novo.

- É, mais as coisa aqui num tá boa mermo não. Cê vêi numa frase difíce. Tá teno é desemprego, e muito…

- É… mas se Deus quiser e o sagrado Bom Jesus da Lapa, logo, logo eu acho emprego.

Dolores interferiu na conversa e disse:

- É Climério, cê tem que apegar com Jesus, mas né cum a image do Bom Jesus da Lapa não. Aquilo lá é só um pedaço de pau. Num serve pra nada.

- Oxente Dolores! Cê tá doida? Deus castiga, tu falano assim… Fica brincano!

- Eu num tô brincano não. Cê tem qui creditá só ne Jesus e na Bibla.

- E os santo, que tanto ajuda todo mundo?

- Esses não! Eles num serve pra nada…

- E Nossa Sinhora?

- Sua Sinhora, pra mim ela foi uma muié como outra qualqué.

- Quem te botou isso na cabeça, Dolores?

- Êpa! Para aí cêis dois.Vamo vê as notiça. Óia lá o jornal – Falou com firmeza Genário

“E agora as manchetes do dia: Cresce assustadoramente o numero de desempregados na Capital de São Paulo. Veja os detalhes com a nossa repórter.”

Horas mais tarde, Genário tocou o ombro de Climério e disse: vá para cama… cê tá cochilano faiz tempo…

Seu Genário certificou que as portas e janelas estavam bem fechadas, e, quando ia apagar as luzes, Climério apareceu na porta do quarto e disse:

- Daltro e Vaninho num chegaro ainda…

- Senta aí Climero, xô te contar umas coisa que cê num sabe ainda. Eles num tem hora pra chegar nem pra sair. Num posso perguntar nada que eles vem com mil pedra na mão. Eu mermo num sei o que eles faiz, mas dicunfio que num é nada honesto. Eu fiz de tudo pra insinar eles no caminho certo, mas depois que nóis cheguemo aqui muita coisa mudou. Eles foi cresceno, engrossano o pescoço, sairo do meu comando. Juntou cum bucado de cabra safado, qui aqui tem muito, e foi nas influença deles. Já tivero até preso.

- E eu to veno a hora de chegar aqui uma notiça ruim.

- Meu fí, eu to aqui mas tenho vontade de vortar lá pra nosso sertão. Tem dia que me dá uma saudade de lá, de todo mundo, do tempo que meus fí era piqueno, tudo junto brincano. Cê lembra, né?

- Tio Genaro, porque intão o sinhô num vai simbora? O sinhô ta aposentado…

- É… mas a mãe num quer apartar dos fí… Mas… vamo durmir qui tá passano da hora, vamo.

Enquanto se encaminhavam, cada um para o seu aposento, Climério pediu a benção.

- Bença, Tio Genaro!

- Deus te abençoe, Climero!

XVI – O encontro

27 de fevereiro de 2010 por Zé do Mundo

A rodoviária de São Paulo estava como um formigueiro. Climério desceu do ônibus sem se preocupar com bagagem pois trazia apenas uma sacola de mão. De repente ele ouviu:

- Tio Climério! Ei…! Aqui!

Ele girou olhando para todos os lados. Viu então aquela moça de corpo avantajado acenando e correndo em sua direção.

- Tio Climério! Num tá me conheceno não, né?

- É Nalvinha?

- Não… Dolores! É que eu engordei um poquinho.

- Ah bom… Como vai? Cadê a turma?

- Tamo indo com a graça de Deus. Pai mandou eu vim encontrar com o senhor…tem bagage não?

- Não, é só isso. Já casou?

- Inda não… Deus tá providenciano um marido pra mim.

- Pois é Dolores, apela pra Santo Antonhe casamenteiro… quem sabe…

- Esse não! Num credito mais ne santo, só ne Jesus…

- Oxente e porque?

- Agora eu sou evangélica. Sou obreira.

- Ob… ob… o quê?

- Obreira é quem ajuda lá na igreja…

- Tá bom… vamo simbora no camim nóis conversa mais.

Seguiram então, tomaram o ônibus e continuaram a conversar. Muito assunto e Dolores falando de religião sem parar, já incomodando Climério, que pacientemente ouvia.

- Sim mas me fala aí cadê Vaninho, Daltro e Nalvinha?

- Ah tio. Se Deus num tiver pena e se eles num entregar o coração pra Jesus eles vai acabar morreno matado.

- Oxente Dolores como qui cê fala assim dos seus irmão?

- Daltro mais Vaninho viraro dois perdido. Ninguém sabe o que eles faiz. Só sei que só anda de roupa bonita, gastano dinheiro com cachaça e os vizinho fala até queles roba e consome droga…

Os olhos de Climério se arregalaram de espanto. Veio-lhe a mente doces recordações da infância, quando ele Vaninho e Daltro brincavam pelas veredas da caatinga em Riachinho. Montando em jegue, trepando nos umbuzeiros para balançar a árvore fazendo cair centenas de frutos maduros pelo chão… as festas de São João… Ah que tempo bom, tempo da inocência… agora perdida.

- E Nalvinha? Como vai ela?

- Essa é outra doida. O senhor precisa ver as roupa quela veste. Sai de casa, passa uns quinze dias sem dá as cara. Diz que vai simbora de casa pra morar só. Briga mais pai e mãe todo dia. Num ouve consei de ninguém! Vanin e Daltro também já falaro até em dar uma surra ne pai. Mas num fala que eu disse nada pro senhor não viu? Senão é eu qui vou sofrer…  Já tamo chegano, falta pouco…

Naquele caos da cidade grande, gente, carros, arranha-céus, multidão, fumaça desfilavam aos olhos de Climério, sem contudo lhe causar espanto ou admiração pois ele já estivera naquele inferno. Pensou nos filhos, em Maria Clara, em sua mãe, na solidão das estradas de Riachinho, no silencio da noites do seu lugar…

XV – A partida

27 de fevereiro de 2010 por Zé do Mundo

Duas lágrimas apenas rolaram na face de Maria Clara. Seus filhos não choraram, endurecidos, pareciam entender a situação como se fossem adultos.

- O sinhô vem buscá nóis pai? – Perguntou Alexandre, o mais velho.

- Tô ino qui é o jeito meu fí. Mais pai vorta. Se der jeito eu vem buscá cêis tudo. Cuida de sua mãe e de seus irmão. Cê agora é o chefe da casa. – Assim falando Climério piscou o olho para o filho, pegou na mão de Maria Clara:

- Assim qui eu puder, eu ligo lá pra casa de Pedro do Armazém pra dá notiça. Ele falou qui eu posso ligá. Nelsin vai ficar cum a bicicleta pra ficar te avisano toda veiz qui chegar as cesta base… Se Antonha parecer, chama ela pra ficar mais ocê e os minino. Seu avó vai ficá vino de veiz em quando pra vê como tá as coisa. Se parecer alguém pra ajudá, bom, mas se vier cum cunversa de comprar nossa terrinha cê manda ele ir pros inferno.

- Cê despediu de sua mãe, Climério?

- Tó ino pra lá agora.

Climério ajeitou seus pertences na bicicleta, uma pequena mochila de pano, um saco plástico com alguns objetos, e dirigiu-se a casa de sua mãe, a poucos quilômetros dali, seguindo as empoeiradas estradas daquele sertão de Deus.

- Vim pedir sua bença. mãe… Tô ino simbora pra Son Palo mas só vai eu só, dispois eu vem buscá a famía.

- Deus te abençoe, meu fí. Toma cuidado lá. Aquilo é o fim do mundo, cê já sabe, já foi lá.

- Prercupa não mãe, eu sei andá lá. Vô ficá na casa do tio de Maria Clara, Genaro… ele tá bem lá, tá tudo ajeitado, mãe.

- Deus te leve e traga, meu fí. Vai rezano, pede ajuda os santo também, pra te livrar das armadia daquele fim de mundo.

Climério abraçou a mãe, beijou as suas mãos e despediu-se dos demais indo para Santa Maria de onde partiria o ônibus para São Paulo, com o patrocínio da prefeitura.