Cristo Crucificado – Insensatez Humana

29 de janeiro de 2010 por Zé do Mundo

A imagem do Cristo Crucificado, permanecendo intacta entre os escombros da igreja Sacré Coeur, após o terremoto devastador que abalou o Haiti, serve como símbolo  de alerta a humanidade sobe a situação desnivelada que vive os povos do mundo. Grande parte do nosso planeta não tinha conhecimento da realidade daquele país. Após este fato lastimável, um número sem fim de acessos a Internet busca informações sobre aquele povo e seu infeliz destino até aqui.

Sem que haja nenhuma ligação com os fatos, minha lembrança no entanto, viaja até o atentado de 11 de setembro  no WTC, através do qual o mundo muçulmano, apesar de sua cultura milenar ignorada, passou a ser alvo de estudos e pesquisas por grande parte do mundo ocidental. Por que aqueles fanáticos terroristas fizeram aquilo? É a pergunta que se fazia: Quem são êles ?

Esses dois acontecimentos lamentáveis têm a natureza e o homem como responsáveis diretos. Mas em ambos os fatos, o resultado, além da dor,  das perdas humanas e materiais, é a revelação da  fotografia em preto e branco de um mundo literalmente dividido entre pobres e ricos.

Agora muita gente tomou conhecimento do Haiti e das amarguras do seu povo. Como no pós 11 de setembro conheceram os mulçumanos do Afeganistão, do Iraque etc.. O leitor vai perguntar: Onde você quer chegar com esta asneira sem paralelo?  Simples. Gostaria que todas as pessoas do planeta soubessem onde estão e como vivem os seus irmãos carentes; que fosse mostrado pela mídia exaustivamente; que fosse matéria obrigatória em todos os cursos nas escolas; que fosse debate constante no mundo acadêmico; que fosse assunto da pauta diária nos governos, enfim que esse assunto cauterizasse a nossa mente numa busca obsessiva pela solução, para não precisar que somente as catástrofes venha a nos chamar a atenção destes desvalidos.

Cristo continua  crucificado  pela insensatez humana. Nós o manteremos lá enquanto permitirmos que metade da  população mundial carregue a cruz da miséria e do desprezo

GLOBALIZAÇÃO

11 de janeiro de 2010 por Zé do Mundo

 

Embora a idéia não seja nova, a globalização que existe desde as mais remotas épocas, reaparece em nossos tempos com uma força irreversível, conduzindo a humanidade, ao meu ver, a um futuro que já se desenha, no presente, como incerto e calamitoso.

A globalização que deveria ter um efeito democrático no mundo, visando o fortalecimento das nações com base em um livre e justo comércio, tornou-se um dragão voraz pregando a democracia de consumo, pois apóia-se única e essencialmente no lucro ganancioso das grandes corporações. As instituições democráticas, estão corrompidas por estas forças sinistras e sucumbiram a sua doutrina: a corrupção.

Produzindo cada vez mais a um custo menor os seus produtos, com a abundante mão de obra escrava disponível no terceiro mundo, as grandes empresas, principalmente do hemisfério norte,  tornaram-se multinacionais “propulsoras do desenvolvimento” a um custo social sem precedentes pois a concentração de renda no planeta jamais alcançou níveis tão perigosos para  a humanidade.

O que se apregoa por aí:“o mundo é  agora um só” ou “o mundo é plano – sem fronteiras ou obstáculos entre os paises”  é uma grande mentira. Estando o homem a margem de qualquer interesse, ou colocado em segundo plano, o mundo jamais será um só.

A miséria é reinante e sabemos que 50 % dos povos vivem em condições de pobreza absoluta. Mas as grandes empresas  que governam o mundo e detém o poder sobre a produção, a política, os governos, a mídia  e até a arte, estão cada vez mais ricas e poderosas pois a globalização lhes concedeu este mandato. Quanto a população faminta, ela  só vai ser interessante  para o  mundo “civilizado” quando ingressar na democracia de mercado  para aumentar a concentração de renda dos poderosos.

Os americanos levantaram seus muros na fronteira com o México, a xenofobia é efervescente nos paises europeus ou  seja os ricos querem distancia dos pobres, na verdade só os querem como consumidores ou como trabalhadores serviçais.

Mensagem

30 de dezembro de 2009 por Zé do Mundo

Um homem, morador de rua, recebeu em sua morada sob um viaduto, a visita de um senhor vestido de Papai Noel que lhe presenteou com um cobertor felpudo de boa qualidade. Aquele pobre coitado, moribundo recusou-se no entanto a receber o presente, agradeceu e disse ao “Papai Noel” que já tinha um bom cobertor e que ele levasse para outra pessoa. Intrigado com a recusa,  o P.N. perguntou-lhe de que mais necessitava então. O pobre homem disse:  preciso de um cobertor que me traga calor humano, que me cubra de dignidade, que me aqueça de esperança e que por fim me embale num profundo sono no qual eu possa sonhar com um mundo justo em que a emoção supere a razão e o “ser” consuma o “ter” , porque só assim seremos todos felizes inclusive o senhor “seu” Papai Noel”. Assustado, surpreso  com o que ouviu do mendigo o jovem cidadão travestido resolveu “gastar” um pouco do seu tempo fazendo outras perguntas ao homem. O senhor é poeta ? Cursou faculdade ? Onde está sua família ? Porque o senhor está na rua ? É uma opção  de vida ou … ? Sofre de alguma doença ? Foi um  longo interrogatório. E todas as perguntas foram respondidas. Você leitor gostaria de saber o desfecho dessa historia ?  Vá aos campos, cidades, vilas, ainda que não leve presentes nem se vista de Papai Noel, busque  as pessoas a sua volta, se interesse pelo seu semelhante, tenha tempo para aqueles que lhe procuram, enfim viva aquele mandamento que parece impraticável: “ama a teu próximo como a te mesmo” – você vai ter muitas surpresas ! – Feliz 2010!

Choque de moralidade

16 de dezembro de 2009 por Zé do Mundo

Estamos precisando e muito. Os anos vão passando e estamos nos deteriorando enquanto sociedade. Invertemos os  valores, exaltamos, não a liberdade mas a libertinagem. Festejamos a imbecilidade cultural dessa pobreza musical da atualidade, com suas letras ridículas e pornográficas. Admitimos “ a justiça com as próprias mãos” em detrimento das leis não serem cumpridas. Aplaudimos a irreverência irresponsável dos nossos ídolos do futebol, da musica etc. e a tomamos como modelo. Assistimos aos nossos políticos, estas criaturas viciadas, cometerem os seus delitos e não nos indignamos, achando isso normal. Nos contentamos com o baixíssimo nível cultural dos nossos estudantes e achamos  justificável a omissão dos professores por causa do seu péssimo salário. Achamos civilizado qualquer modelo de família em que o papel do pai e da mãe possa ser descartado.

E vamos assim caminhando ….  Isso é normal, isso é natural, isso é progresso, isso é civilizado. E as famílias vão acabando, as grades aumentando em  volta das nossas casas, a violência nos alcançando cada vez mais, a desilusão se apoderando da massa….

Tudo isso se faz existir apenas pela ausência de um grande valor: o valor moral . Esse precioso valor exige “disciplina” e necessita de guardiões (não confundir com sensores) para que o respeito seja restaurado e venhamos a nos envergonhar de tanta irracionalidade. Mas onde estarão eles ? Sim, eles os guardiões da moralidade? Somos nós: adormecidos no conformismo e desanimo diante da grande dificuldade em reverter a situação. A coisa desanda sutilmente em atitudes simples como por exemplo,cortar a fila do Banco ou não ceder o lugar para velhos e senhoras sentarem no ônibus.

Acho que precisamos de um choque de moralidade em todas as áreas da vida da nossa sociedade ,cada vez mais, corrompida e sem rumo.

A Cabana

3 de dezembro de 2009 por Zé do Mundo

O autor, filho de missionários evangélicos, revela o seu entendimento de Deus segundo o que aprendeu em casa. Não concordo que na essência ele contrarie os ensinamento dos pais, conforme diz alguns críticos.  Com a trindade ratificada, governando o planeta e tudo que nele há, Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo  desempenham funções independentes em harmonia  e concordância divinas, difícil para o entendimento racional humano, mas ao alcance do personagem principal do livro, que está lá nesse encontro fazendo o seu questionamento buscando os “porquês” da vida e dos fatos que lhe sucederam. O relacionamento entre o homem e o seu semelhante e  de Deus com os humanos  é relevante neste best-seller  de Willian P. Young.

A ofensa, a dor, a resignação e o perdão convivem neste livro, no qual, volto a dizer, o relacionamento entre os seres humanos é o caminho para o amor final: a cura da alma.

O sucesso do livro deve-se principalmente ao grande interesse das pessoas  em questões que envolvam  o entendimento de Deus e o sentido da vida. O gênero está na moda e a carência de todos nós é grande.

A Crise…. e Lula tinha razão !

22 de novembro de 2009 por Zé do Mundo

Quando o presidente Lula, com o seu otimismo invejável, declarou que a crise mundial não seria um tsunami mas apenas uma “marolinha” aqui no Brasil, não só os economistas mas a imprensa caiu matando em comentários tão agressivos que beiravam o rancor. A rede Globo, em particular, fazendo oposição sistemática ao Governo, trabalhou diuturnamente buscando números que indicasse que a crise já estava instalada e que fatalmente o presidente estaria em maus lençóis com relação a sua afirmação. A maioria dos brasileiros no entanto não se abalou com os prognósticos alarmantes e apocalípticos de Miriam Leitão e o Brasil  parece não ter sentido nem mesmo a marolinha do presidente.

Segundo José Álvaro Cardoso (Técnico do Dieese) as  medidas tomadas pelo Governo naquele momento, usando o BNDES, Caixa Econômica e  Banco do Brasil, socorrendo as empresas sem liquidez, aliada a situação confortável das reservas nacionais somando-se ainda ao crescimento econômico social (20 milhões de brasileiros passaram de pobre para classe média nos últimos anos)  funcionou decisivamente para que o  Brasil não sofresse o efeito devastador da crise.

Com os números indicando o contrário do que a imprensa ( Globo, Veja etc) parecia almejar, a economia brasileira mostrou a sua pujança e ninguém mais lembra dessa tal crise(ou marolinha ? )  O país mais promissor e  seguro para se investir no cenário internacional hoje chama-se Brasil. Lá fora dizem: o “Brasil de Lula”. Aqui  cada vez fica mais difícil de engolir esse tal “barbudo analfabeto”. Reconhecemos  que o presidente as vezes fala mais do que deve. Mas enfim,  se  comparado a todos os governos anteriores temos que admitir que “nunca antes nesse país vimos o povo tão feliz”. É isso aí . O tsunami (palavra masculina no Dicionário Houaiss) virou uma “marolinha” e o prognostico do presidente deu um a zero nos pessimistas de carteirinha : ecnomistas de oposição e a imprensa camaleoa (cameleão fêmea) que alterna sua cor de neutra para marron de vez em quando.

O Refúgio do Guerreiro

8 de novembro de 2009 por Zé do Mundo

A vida de Ilton daria um livro de milhares de páginas e seria uma aventura digna de roteiro de filme. Ele amava e desprezava a vida. Amava-a pois era movido a sonhos. Desprezava-a pois não temia a morte nem dava bolas pro azar: não se preocupava muito com a saúde.

 Durante a sua vida teve apenas três empregos: trabalhou em balcão de farmácia, depois em atacado de medicamentos  e frentista de posto de gasolina. Neste ultimo, quando saiu , decidiu  que não teria mais patrão dali por diante e trabalharia por conta própria. Assim seguiu sua estrada. Aprendeu a profissão de tapeceiro e junto com seu irmão Cláudio  montou uma pequena fabrica de móveis, mas não deu continuidade. Abriu uma sorveteria que funcionou  pouco tempo. Resolveu plantar chuchu, no terreno do seu outro irmão Ozair, mas não logrou resultado. Adquiriu então uma terra na caatinga e foi fazer carvão, mas também não demorou por lá. Com uma motocicleta passou a vender cigarros. Passada a fase do cigarro comprou um bar próximo a feira livre de Conquista, mas, certa manhã, já de saco cheio do bar, trocou o estabelecimento por  20 mil quilos de cebola. O preço da cebola caiu na semana seguinte e ele teve grande prejuízo. Entrou no ramo de bombonière e abriu um pequeno atacado. Não deu certo o negocio e  ele ficou com um carro do tipo “pega frete” vendendo Coca Cola de bar em bar . Deixou de vender refrigerante e passou a vender cachaça, mas não por muito tempo. Comprou uma terra em Divisa Alegre-MG, próximo a Candido Sales-BA. e foi plantar café. Antes de conseguir colher os primeiros grãos , vendeu a terra e adquiriu novamente um pedaço de caatinga. Passou algum tempo por lá depois negociou a terra num trator. Nesta atividade demorou um bom tempo. Mas acabou trocando o trator por um pedacinho de terra próximo a cidade de Berizal-MG. E foi lá onde ele estava tentando fixar sua residência, lá onde ele batizou como “Refugio do Guerreiro”, que Deus o chamou para Seu convívio,  poupando-lhe, quem sabe, uma agonia ainda maior mais adiante em sua vida, uma vez que a sua saúde já era bastante debilitada.

 

A vida sentimental a exemplo da profissional,  também  foi bastante tumultuada. Demonstrava ser duro e escondia sua fraqueza emocional. Era demasiadamente carente de afeto e proteção, mas não deixava ninguém perceber isso. Por conta  de suas aventuras e desventuras, não conseguiu manter seu casamento e acabou arranjando um filho fora do lar. Amoroso apesar de ausente, sempre foi amado por eles. Brincalhão, contador de estórias e sempre sorridente era querido na roda dos amigos. Apesar de amá-lo, a  maioria dos seus parentes tinha restrições quanto a seu “modus vivendi”. Mas enfim, ele seguia , caía e se levantava, trabalhando duro, com a cabeça nas nuvens, nos sonhos… e  assim foi até o ultimo dia de sua vida.

 Meu irmão parecia ser ingênuo como um  menino sonhador que se esquece de por os pés no chão. Nós o aconselhávamos mas ele, teimoso como uma mula, raramente nos ouvia. Uma coisa temos que reconhecer: coragem para trabalhar  e espírito empreendedor jamais lhe faltaram. Descanse em paz querido, nos braços do Senhor. ÊLE agora é  seu refúgio,  o Refúgio do Guerreiro.

Proibido som de carro

31 de outubro de 2009 por Zé do Mundo

Existe na resolução 204/06 do Contran (Conselho Nacional de Transito) uma norma que regulamenta a frequencia de som produzido por equipamentos em veículos. Medido a meio metro de distancia, por exemplo,  o som não pode jamais ultrapassar os 104 decibéis. Mas entre existir a lei e cumpri-la, aqui no nosso Brasil,  há um grande abismo que vai desde o aspecto cultural até a falta de punição para aqueles que desobedecem a lei. Aqueles cidadãos, se é que podemos chamá-los assim, acorrentados a sua vaidade pessoal ou por carência afetiva, precisam mostrar ao mundo que  tem algo valioso:  o som do seu carro. E aí,  quanto mais volume, mais eles  “se acham”.

É realmente uma grande falta de educação, desconhecimento e finalmente descumprimento de mais uma lei brasileira que só fica no papel. Para mim o insuportável mesmo é ter que ouvir tanta musica (será que é musica mesmo ?) de baixa qualidade, sem querer. Dá vontade de chegar para o  cara ( ou cidadão?)  e dizer assim: abaixa o som aí por favor, eu não sou obrigado a compartilhar do seu  mau gosto musical.  Mas, já pensou ? Isso dá até morte. Por conta disso só freqüento barzinho onde a gente pode conversar, bater papo e onde se lê numa placa: “Proibido som de carro”.

Um dia para não se esquecer

22 de outubro de 2009 por Zé do Mundo

Acordei cedo, liguei para minha filha e combinei que levaria minha neta para dar um passeio. Afinal era o dia das crianças. Minhas duas filhas e o meu filho mais velho com os respectivos cônjuges programaram um  churrasquinho no pequeno terraço do prédio onde moram. Enquanto eles aprontavam tudo, fui para uma pracinha próxima brincar com a minha neta. O parquinho da praça tinha raros brinquedos como balanço, escorregadeira, gira-gira (roda com cadeirinhas), quase todos depredados.  Aproveitamos ao máximo e depois fomos para a sombra das árvores brincar de Princesa e Rei. Bem, só estávamos nós dois então tive que fazer vários personagens com vozes diferentes, afinal num reinado tem que ter guardas, súditos, bruxa, príncipe e por aí vai. Improvisei com a chave do carro e gravei o nome dela em uma arvore. A manhã se foi e na volta, passamos na sorveteria e nos esbaldamos de tanto picolé e sorvete . Podemos ficar mais um pouco vô? – perguntou ela. Não querida, o sol está muito quente  e sua mãe, seus tios e  sua vovó estão nos esperando para nosso churrasquinho e vai ser legal. – Respondi. Ela me disse:  Sabe vô é um dia para não se esquecer. A gente brincou tanto. Pois é filha, eu também jamais esquecerei este dia.

Este dia para não se esquecer, nas palavras da minha neta, revelam o quanto uma criança valoriza brincar ao ar livre e viajar nos sonhos e fantasias da sua infância. Mas, esta mudança de tempo (velocidade), em que por opção ou necessidade, os pais confinam seus filhos diante da TV ou do Computador, está maltratando os pequenos e subtraindo deles o vigor físico e mental robotizando-os em linguagem e brincadeiras de um tipo só fazendo-os surfar numa mesma onda. Todos  tem que ser gênios ! A competitividade começa cedo ! E pra completar os avós, com raras exceções, estão mais preocupados em ginástica, cremes para pele e lipo, tentando em vão, conter os efeitos do tempo. E por falar em tempo, o meu é pequeno, mas tenho me esforçado para desempenhar bem o meu papel de avô.  Não é conservadorismo não, é amor, só isso.

A floração dos umbuzeiros – Capítulo XIV

15 de outubro de 2009 por Zé do Mundo

A região de Riachinho estava ficando despovoada. Grande parte dos moradores havia se retirado com destinos diversos. No povoado de Monte Verde e em Santa Maria, o prefeito estava não apenas dando passagens para São Paulo como “contribuindo” com algum valor para viagem. Climério foi ao povoado buscar a sua “cesta básica” mas…

- Maria, Maria! Nada! Num chegaro as cesta ­base não. Dissero que só semana qui vem. O povo tá tudo doído lá. Tem gente igual formiga, gente cum fome, gente quereno ir simbora atráis de passage. E cada dia tá chegano mais. Eles entraro no armazém de Tonhão e panharo tudo. Limparo. Num ficô nada!

- Ué! E o qui é qui nóis vai cumê? Óia seus fi… tá só o osso. Se Deus num manda chuva pra nóis? Pra nóis ter isperança de coiê um fejãozim?

- ­Num perde a fé, Maria Clara, qui Deus castiga.

- Mais do que tá castigano?

- Cala essa boca, muié. Nóis num cumprende as coisa de Deus.

- E o prefeito, o governo… cadê essas bendita cesta?

- Eles tá cum as barriga cheia, tá lá pensando em nóis?!? É tudo cabra safado… Deus vai castigá eles.

Climério pegou a sua enxada, foi para o umbuzeiro e começou escavar ao pé da árvore buscando suas raízes. A terra estava muito endurecida pela longa seca que custou-lhe grande esforço para cavar o buraco de onde retirou as “batatas” do umbuzeiro e levou para casa. Maria Clara improvisou o jantar com o que tinha às mãos: as raízes daquela árvore salvadora, um pouco de farinha e sal. Sentaram-se todos em volta da mesa e comeram em absoluto silêncio. Os olhos de Maria Clara encheram-se de lágrimas observando os filhos, que, com algum gosto, comerem aquele “mingau”. O coração de Climério endurecido pelas mazelas daquela vida, amoleceu ao ver aquela cena. Seu pensamento viajou nas grandes asas da esperança, com destino a uma grande cidade e lembrou das palavras do avô de Maria Clara: “Quilimero, cê tá novo. Vai simbora daqui… vai pra Son Palo trabaiá. Genaro tá lá cuns fi tudo trabaiano e já comprou até casa lá. E ocê já foi lá, cê cunhece… Dispois cê vem buscar sua famía”. Estas palavras soavam em seus ouvidos como eco sem fim.