A região de Riachinho estava ficando despovoada. Grande parte dos moradores havia se retirado com destinos diversos. No povoado de Monte Verde e em Santa Maria, o prefeito estava não apenas dando passagens para São Paulo como “contribuindo” com algum valor para viagem. Climério foi ao povoado buscar a sua “cesta básica” mas…
- Maria, Maria! Nada! Num chegaro as cesta base não. Dissero que só semana qui vem. O povo tá tudo doído lá. Tem gente igual formiga, gente cum fome, gente quereno ir simbora atráis de passage. E cada dia tá chegano mais. Eles entraro no armazém de Tonhão e panharo tudo. Limparo. Num ficô nada!
- Ué! E o qui é qui nóis vai cumê? Óia seus fi… tá só o osso. Se Deus num manda chuva pra nóis? Pra nóis ter isperança de coiê um fejãozim?
- Num perde a fé, Maria Clara, qui Deus castiga.
- Mais do que tá castigano?
- Cala essa boca, muié. Nóis num cumprende as coisa de Deus.
- E o prefeito, o governo… cadê essas bendita cesta?
- Eles tá cum as barriga cheia, tá lá pensando em nóis?!? É tudo cabra safado… Deus vai castigá eles.
Climério pegou a sua enxada, foi para o umbuzeiro e começou escavar ao pé da árvore buscando suas raízes. A terra estava muito endurecida pela longa seca que custou-lhe grande esforço para cavar o buraco de onde retirou as “batatas” do umbuzeiro e levou para casa. Maria Clara improvisou o jantar com o que tinha às mãos: as raízes daquela árvore salvadora, um pouco de farinha e sal. Sentaram-se todos em volta da mesa e comeram em absoluto silêncio. Os olhos de Maria Clara encheram-se de lágrimas observando os filhos, que, com algum gosto, comerem aquele “mingau”. O coração de Climério endurecido pelas mazelas daquela vida, amoleceu ao ver aquela cena. Seu pensamento viajou nas grandes asas da esperança, com destino a uma grande cidade e lembrou das palavras do avô de Maria Clara: “Quilimero, cê tá novo. Vai simbora daqui… vai pra Son Palo trabaiá. Genaro tá lá cuns fi tudo trabaiano e já comprou até casa lá. E ocê já foi lá, cê cunhece… Dispois cê vem buscar sua famía”. Estas palavras soavam em seus ouvidos como eco sem fim.