Duas lágrimas apenas rolaram na face de Maria Clara. Seus filhos não choraram, endurecidos, pareciam entender a situação como se fossem adultos.
- O sinhô vem buscá nóis pai? – Perguntou Alexandre, o mais velho.
- Tô ino qui é o jeito meu fí. Mais pai vorta. Se der jeito eu vem buscá cêis tudo. Cuida de sua mãe e de seus irmão. Cê agora é o chefe da casa. – Assim falando Climério piscou o olho para o filho, pegou na mão de Maria Clara:
- Assim qui eu puder, eu ligo lá pra casa de Pedro do Armazém pra dá notiça. Ele falou qui eu posso ligá. Nelsin vai ficar cum a bicicleta pra ficar te avisano toda veiz qui chegar as cesta base… Se Antonha parecer, chama ela pra ficar mais ocê e os minino. Seu avó vai ficá vino de veiz em quando pra vê como tá as coisa. Se parecer alguém pra ajudá, bom, mas se vier cum cunversa de comprar nossa terrinha cê manda ele ir pros inferno.
- Cê despediu de sua mãe, Climério?
- Tó ino pra lá agora.
Climério ajeitou seus pertences na bicicleta, uma pequena mochila de pano, um saco plástico com alguns objetos, e dirigiu-se a casa de sua mãe, a poucos quilômetros dali, seguindo as empoeiradas estradas daquele sertão de Deus.
- Vim pedir sua bença. mãe… Tô ino simbora pra Son Palo mas só vai eu só, dispois eu vem buscá a famía.
- Deus te abençoe, meu fí. Toma cuidado lá. Aquilo é o fim do mundo, cê já sabe, já foi lá.
- Prercupa não mãe, eu sei andá lá. Vô ficá na casa do tio de Maria Clara, Genaro… ele tá bem lá, tá tudo ajeitado, mãe.
- Deus te leve e traga, meu fí. Vai rezano, pede ajuda os santo também, pra te livrar das armadia daquele fim de mundo.
Climério abraçou a mãe, beijou as suas mãos e despediu-se dos demais indo para Santa Maria de onde partiria o ônibus para São Paulo, com o patrocínio da prefeitura.