A rodoviária de São Paulo estava como um formigueiro. Climério desceu do ônibus sem se preocupar com bagagem pois trazia apenas uma sacola de mão. De repente ele ouviu:
- Tio Climério! Ei…! Aqui!
Ele girou olhando para todos os lados. Viu então aquela moça de corpo avantajado acenando e correndo em sua direção.
- Tio Climério! Num tá me conheceno não, né?
- É Nalvinha?
- Não… Dolores! É que eu engordei um poquinho.
- Ah bom… Como vai? Cadê a turma?
- Tamo indo com a graça de Deus. Pai mandou eu vim encontrar com o senhor…tem bagage não?
- Não, é só isso. Já casou?
- Inda não… Deus tá providenciano um marido pra mim.
- Pois é Dolores, apela pra Santo Antonhe casamenteiro… quem sabe…
- Esse não! Num credito mais ne santo, só ne Jesus…
- Oxente e porque?
- Agora eu sou evangélica. Sou obreira.
- Ob… ob… o quê?
- Obreira é quem ajuda lá na igreja…
- Tá bom… vamo simbora no camim nóis conversa mais.
Seguiram então, tomaram o ônibus e continuaram a conversar. Muito assunto e Dolores falando de religião sem parar, já incomodando Climério, que pacientemente ouvia.
- Sim mas me fala aí cadê Vaninho, Daltro e Nalvinha?
- Ah tio. Se Deus num tiver pena e se eles num entregar o coração pra Jesus eles vai acabar morreno matado.
- Oxente Dolores como qui cê fala assim dos seus irmão?
- Daltro mais Vaninho viraro dois perdido. Ninguém sabe o que eles faiz. Só sei que só anda de roupa bonita, gastano dinheiro com cachaça e os vizinho fala até queles roba e consome droga…
Os olhos de Climério se arregalaram de espanto. Veio-lhe a mente doces recordações da infância, quando ele Vaninho e Daltro brincavam pelas veredas da caatinga em Riachinho. Montando em jegue, trepando nos umbuzeiros para balançar a árvore fazendo cair centenas de frutos maduros pelo chão… as festas de São João… Ah que tempo bom, tempo da inocência… agora perdida.
- E Nalvinha? Como vai ela?
- Essa é outra doida. O senhor precisa ver as roupa quela veste. Sai de casa, passa uns quinze dias sem dá as cara. Diz que vai simbora de casa pra morar só. Briga mais pai e mãe todo dia. Num ouve consei de ninguém! Vanin e Daltro também já falaro até em dar uma surra ne pai. Mas num fala que eu disse nada pro senhor não viu? Senão é eu qui vou sofrer… Já tamo chegano, falta pouco…
Naquele caos da cidade grande, gente, carros, arranha-céus, multidão, fumaça desfilavam aos olhos de Climério, sem contudo lhe causar espanto ou admiração pois ele já estivera naquele inferno. Pensou nos filhos, em Maria Clara, em sua mãe, na solidão das estradas de Riachinho, no silencio da noites do seu lugar…