No dia seguinte, depois de acomodado no quarto dos rapazes da casa, Climério pegou sua mochila, certificou-se que os seus documentos estavam em ordem, despediu-se do pessoal da casa:
- Vô correr trecho, sé devo vortá de noite.
Para aqui, para acolá, de construção em construção, nada de trabalho. Lanchonetes, bares, supermercados… nada.
Finda o dia e a noite iluminada da grande São Paulo brilha majestosa. Climério, no entanto, retorna ofuscado, mas esperançoso. Afinal de contas ele já estivera lá anteriormente e sabia que era uma questão de tempo. Logo estaria empregado. No caminho de volta ele pega o metrô e vai pensando: “Virge Maria, cada veiz mais Son Palo tá mais doido. E eu qui tô pensano em trazê meus fí e a muié pra cá…”.
Depois de tomar banho e jantar com a família, sentou-se com Dolores, a sua mãe D. Florilda e o seu Genário, pai, de frente a televisão.
- E aí Climério, achou trabái? – Perguntou Genário
- Inda não, cacei in tudo qui é lugar. Mas Son Palo é grande, amanhã vô girá por aí de novo.
- É, mais as coisa aqui num tá boa mermo não. Cê vêi numa frase difíce. Tá teno é desemprego, e muito…
- É… mas se Deus quiser e o sagrado Bom Jesus da Lapa, logo, logo eu acho emprego.
Dolores interferiu na conversa e disse:
- É Climério, cê tem que apegar com Jesus, mas né cum a image do Bom Jesus da Lapa não. Aquilo lá é só um pedaço de pau. Num serve pra nada.
- Oxente Dolores! Cê tá doida? Deus castiga, tu falano assim… Fica brincano!
- Eu num tô brincano não. Cê tem qui creditá só ne Jesus e na Bibla.
- E os santo, que tanto ajuda todo mundo?
- Esses não! Eles num serve pra nada…
- E Nossa Sinhora?
- Sua Sinhora, pra mim ela foi uma muié como outra qualqué.
- Quem te botou isso na cabeça, Dolores?
- Êpa! Para aí cêis dois.Vamo vê as notiça. Óia lá o jornal – Falou com firmeza Genário
“E agora as manchetes do dia: Cresce assustadoramente o numero de desempregados na Capital de São Paulo. Veja os detalhes com a nossa repórter.”
Horas mais tarde, Genário tocou o ombro de Climério e disse: vá para cama… cê tá cochilano faiz tempo…
Seu Genário certificou que as portas e janelas estavam bem fechadas, e, quando ia apagar as luzes, Climério apareceu na porta do quarto e disse:
- Daltro e Vaninho num chegaro ainda…
- Senta aí Climero, xô te contar umas coisa que cê num sabe ainda. Eles num tem hora pra chegar nem pra sair. Num posso perguntar nada que eles vem com mil pedra na mão. Eu mermo num sei o que eles faiz, mas dicunfio que num é nada honesto. Eu fiz de tudo pra insinar eles no caminho certo, mas depois que nóis cheguemo aqui muita coisa mudou. Eles foi cresceno, engrossano o pescoço, sairo do meu comando. Juntou cum bucado de cabra safado, qui aqui tem muito, e foi nas influença deles. Já tivero até preso.
- E eu to veno a hora de chegar aqui uma notiça ruim.
- Meu fí, eu to aqui mas tenho vontade de vortar lá pra nosso sertão. Tem dia que me dá uma saudade de lá, de todo mundo, do tempo que meus fí era piqueno, tudo junto brincano. Cê lembra, né?
- Tio Genaro, porque intão o sinhô num vai simbora? O sinhô ta aposentado…
- É… mas a mãe num quer apartar dos fí… Mas… vamo durmir qui tá passano da hora, vamo.
Enquanto se encaminhavam, cada um para o seu aposento, Climério pediu a benção.
- Bença, Tio Genaro!
- Deus te abençoe, Climero!