XIX – A saudade

Em meio a tanta gente, apesar de estar trabalhando no mesmo bloco que Boi, Climério não conseguiu localizá-lo. O dia rompeu e se foi sem que ele conseguisse um novo contato.

Para ele, a maior alegria era encontrar um conterrâneo ou um conhecido naquela terra de ninguém. Saiu indagando até conseguir informação. Boi não viera trabalhar naquele dia.

A noite, ao retornar do trabalho, aproximando-se da casa , notou um grande numero de pessoas na porta, corre-corre, ambulância, polícia… Ele apressou-se entre os curiosos e vizinhos até alcançar a sala. Um homem estava sendo socorrido por uma junta médica – era Seu Genário, que fora esfaqueado por um dos seus filhos: o Daltro. Havia gritos e choro, de D. Florilda e Dolores, desesperadas… incontroláveis.

- Foi Daltro! Ô Jesus! Ele tava drogado… Gritava Dolores enquanto D. Florilda recostada no sofá e passando mal, recebia ajuda das enfermeiras e dizia entre soluços e falta de ar:

- Ô meu Deus! Cumé qui isso pôde cuntecê? Eu num mereço… eu num mereço…

A luz vermelha da ambulância, girando com seus feixes de luz, iluminava o rosto de Climério, revelando-lhe os olhos arregalados e horrorizados com a situação. Agora já fora do ambiente e procurando ver Genário, tentava chegar até ele, mas a polícia o impedia e ainda o interpelava:

- Eu vi o senhor lá dentro da casa. O senhor é parente da família?

- Sim, sou. Sou casado cum a subrinha de S. Genaro…

- O senhor conhece bem o Daltro?

- Bem… quando a gente era menino lá….

- Não quero saber de passado! – Interrompeu o homem rispidamente.

- Quero informações sobre o Daltro. De onde ele poderia estar agora! – Berrou ainda mais alto o policial.

Embaraçado, Climério começou a tremer e falou:

- Tem poucos dias qui eu cheguei e ainda num tive cum ele.

Dolores gritou de lá:

- Climério! Vamo mais eu no Hospital! Ô seu guarda, esse aí é primo meu e tem poucos dia qui chegou do nordeste. Ele num é da marca de Daltro não. É trabaiador.

Não foi grave o caso de Seu Genário e dois dias depois ele já estava em casa recuperando-se da pequena cirurgia que fizera.

Climério estava oprimido pelos fatos e pelo desencanto de ver a família de Genário naquela situação. Já não tinha certeza se traria a sua família para aquele mundão. Comparava a vida de lá e de cá. E pensava… e pensava… até perder o sono: “Dolores tá doida cun essas coisa de crente, num credita mais nos santo. Tia Florilda tá qui nem Boi, calada. Só fala se a gente preguntar qualquer coisa. Daltro e Vaninho viraro uns bicho qui a poliça quer pegar e Nalvinha, sumiu nas parambeira , derna qui tô aqui ainda num vi. Tio Genaro quer ir simbora mas num pode… ta qui nem preso… e se Deus me livre e guarde, eu troxer meus fí e a muié e a coisa disandar qui nem ta nessa casa?”

Climério rezou dois “pai nossos”, duas “ave-marias” e pediu a Deus sono. A madrugada estava fria, o tempo caminhava a galope e lhe traria mais um dia, de trabalho duro, de dúvidas e saudade, muita saudade de sua terra e dos seus.

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