Climério teve alguns encontros com Boi no decorrer daqueles três meses… Não conseguia, no entanto, descobrir quase nada da vida dele, desde que saiu de Riachinho. Sabia apenas com certeza, que ele continuava só, sem família, sem ninguém e mantinha sua introspecção, seu silêncio. Cumpria ordens que lhe eram dadas e as executava sem questionar desde sua infância. Geralmente era chamado para tarefas que mais dependiam de força física.
Apenas em duas ocasiões falou, por telefone com os seus familiares e por carta enviou-lhes algum dinheiro. Jamais revelou nada a alguém sobre Boi e o seu paradeiro.
Definitivamente, Climério não ficaria mais em São Paulo. Como dizia ele “Son Palo num é mais qui nem uns tempo atráis… A gente num tem sirviço e isso aqui virou as brenha dos inferno. Vê tê qui ir simbora.”
Era setembro e a manhã estava linda apesar da poluição da cidade. Enquanto arrumava as suas coisas de viagem, Climério sonhava com sua terra. Ah…! Tudo devia estar melhor, Maria Clara lhe falara que “as chuva dos imbu deixou os imbuzeiro tudo bonito e a floração tá grande – vai ter fartura”.
- Cê vai vortá mermo, Climério?
- Vô, Tio Genaro. Tô morreno de saudade dos fí e da muié , do meu pedacim de chão…
- Dessa veiz cê num demorou nada, né? Só ficou aqui trêis mêis…
- É tio… mas as coisa mioraro por lá. E aqui a coisa num tá mais qui nem antes.
- E sua mãe? Miorou?
- Maria Clara falou qui ela tá miozinha. Ta tomano uns remedo do mato lá…
- Quá… Se ela tiver fortinha manda ela vim pra cá tratar aqui.
- Tá bom, tio. E o sinhô? Quando vai sair por lá?
- Num sei meu fí… num sei. A vontade é muita… mais Deus num vai deixá eu morrê aqui não. Eu vorto… um dia eu vorto nem qui seja pra morrê lá…
Seu Genário desviou seu olhar para evitar que Climério percebesse lágrimas nos seus olhos. Ele tornara-se um homem triste e doente. Sua doença era difícil de ser curada pois a sua alma estava acorrentada, sem chance de mudança. Sua esposa, depressiva, em nada parecia com aquela mulher forte e trabalhadeira daqueles tempos lá no sertão. Seus filhos se transformaram em feras que não lhe davam nenhum gosto. E aquela cidade que o acolhera e o beneficiara com trabalho, trouxera-lhe apenas o progresso material, roubando-lhe no entanto o seu bem mais precioso: sua família. Ele era um homem só e cada vez mais ia se tornando como D. Florilda. Olhar perdido no horizonte, silencio, lágrimas, pensamentos, saudade de tudo… de todos… de antes.
- Tio, tia, inté. Deus que ajude ocês por tudo qui ocês fizero. Despedi de Dolores onte. Ela disse qui ia manhecê o dia na igreja e qui quando vortasse num dava tempo me ver mais. Dá lembrança Nalvinha e os minino.
- Manda notíça, Climero… Ah! Eu isqueci de te falar. Otro dia vêi aqui um rapaiz e disse qui é colega seu e vei a mando de Tõe Grande. Ele ficô de vortá dispois. Cê sabe quem é esse tal de Tõe Grande?
- Sei… é um colega lá da construção. Se ele vortá aí o sinhô fala qui eu viajei mais vou mandá notiça de vez em quando.
Climério olhou para trás mais uma vez e acenou para Seu Genário e D. Florilda , dando adeus àquele lar conturbado, mas, que o acolheu com amor por aquele breve tempo. Os idosos se olharam, entraram, fechando com um cadeado o portão da frente.
São Paulo ficou para trás. Se dependesse da vontade de Climério ele não mais voltaria lá, a não ser para passear. Trazer mulher e filhos pra morar, jamais.