XXI – O retorno

Da janela, Maria Clara avistou bem ao longe, um homem na estrada, vindo na direção de sua casa. A imagem trêmula desfigurada pelo calor que subia do chão, a impediu de reconhecer quem era, imediatamente. Mas logo, seus olhos brilharam e o seu coração começou a bater mais forte.

- Flosina, Mané Pêdo… Lixandre, vem cá… oia lá! Aquele é seu pai num, é? – Gritou ela.

Ela estava certa. Climério que vinha marchando rápido, apesar do cansaço, começou a correr. Ela e os meninos saíram ao encontro dele em disparada. O cachorro também acompanhou. Era um novo cão mas com o mesmo nome: “Leão”.

Climério abraçou todos de uma vez. Num gesto que nunca fizera antes, beijou os filhos, afagando-lhes os cabelos. Tomou Maria Clara nos braços, suspendeu-a e rodopiou com segurança até ficar tonto.

- Pai vortô meus fí… Mais num vim buscá ocês não. Eu vim pra nunca mais ir simbora. Meu lugar é aqui cum ocês. E se um dia eu dizer de novo qui quero ir simbora pra qualqué lugar , num deixa eu ir não qui eu tô doido.

- Cê viu como a caatinga ta bunita? Tá tudo verdim e farturento, Climero. Nós plantou mi, feijão, abroba , melancia, andu…

- Bonito mermo tá os pé de imbu… êta floração arretada!

Alexandre pegou a mochila do pai, as meninas ajudaram pegando as sacolas. Entraram festivos na casa. Ele foi logo abrindo a mochila e distribuindo pequenas lembrancinhas para cada filho e para a esposa um vestido verde com florzinhas brancas e amarelas.

- Esse vestido num parece a cor dos imbuzeiro na floração?

- Parece…

- Pois é, pensei nisso conde comprei. Isprementa aí e vê se fica bom

Maria Clara foi lá dentro, vestiu o tal vestido florido e veio até a salinha da casa. Ao vê-la, Climério ficou boquiaberto.

- Cê tá mais bonita qui um imbuzeiro florido no mêi da seca.

Maria Clara que estava sorridente, fez uma pausa em sua alegria e falou com seriedade :

- Sua mãe, cê tá sabeno? Tá muito doente…

- Eu tô sabeno. Tio Genaro falou pra ela ir pra lá fazê um tratamento.

- Ela foi em Santa Maria. Lá tava teno uns médico inzaminando o povo e…

- Esses médico num sabe de nada, num tem apareiage. Eles vem aqui nas carrêra de veiz em quando. Vô lá amanhã falar cum mãe pra ir simbora pra Son Palo cuidá da saúde.

- Também é bom cê sabê qui D. Dozinha morreu.

- Oxente, qui dia?

- Faiz quinze dia.

Eles ficaram juntos naquela tarde. Os meninos perguntando coisas sobre sua viagem a São Paulo e falando da Escola, da professora, dos postes de luz que já estavam próximos de Riachinho. Eles caminharam em pouco tempo toda a propriedade. Nada mudou, exceto pela cor do pequeno pasto e das plantações, que estavam bem verdinhas.

- Eu vou comprar uma vaquinha pra nóis ou pelo menos uma cabra e umas galinha. Vamo proveitá essa invernada. Deus bençuou e mandô chuva pra cá. Agora nóis tá seguro. O feijão tá vingado e os outro mantimento também. -  Falou Climério para os seus.

As nuvens estavam com boa formação. No fim daquele mesmo dia choveu intensamente. O córrego periódico do Riachinho, de água amarelada, começou a correr pelo seu leito arenoso. A paisagem agora em nada se parecia com aquela que Climério deixara há uns meses.

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