XXII – A tristeza

Climério bateu na portinhola da casinha simples. Ninguém atendeu. Ele gritou:

- Mãe, sou eu, Climério, seu fí… abre aqui. Cheguei mãe… vortei!

Nada. Ninguém lá dentro. Nenhuma resposta. Climério forçou a porta e adentrou procurando por sua mãe e a encontrou desfalecida próxima a sua cama no seu quarto. Tomou-a nos braços, balançando o seu tronco:

- Mãe! Responde, Mãe!!!

Ela murmurou:

- Meu fí, pega uma vela… tráis, tô ino pontá teu pai…

- Não, mãe… num fala assim não. Eu vô buscá ajuda.

Não deu tempo. D. Joaninha cerrou os olhos e expirou. Morreu nos braços do seu querido filho Climério. Ela tinha deixado cair no chão a sua caixinha de madeira e várias fotos estavam espalhadas no quarto. Entre elas, três fotos do seu noivado com Zequinha, seu finado esposo. Aquela manhã estava clara e havia muito canto de pássaros nas copas dos umbuzeiros floridos. D. Joaninha se fora, tal como a brisa que vem e vai. Suavemente se esvaiu nos braços do seu primogênito. Ela estava doente há apenas três meses.

A noite não estava muito quente pois era tempo das invernadas e tinha chovido muito no dia anterior. Na sala da simples casa, a sentinela, ou seja, o velório de D. Joaninha transcorria quase silencioso, com um pranto contido dos seus parentes e amigos. Servia-se café, chá e biscoitos de polvilho. Climério não permitiu servir cachaça e avisou que se alguém tivesse fome aguardasse um pouco que logo sairia uma “jantinha” para os presentes.

Na frente da casa foi acesa uma fogueira, como aquelas de São João, bancos ao redor de onde algumas pessoas conversavam.

- Cumé qui foi isso Tõe?

- Sei não. Só sei qui Joaninha morreu nos braço do fí mais véi.

- Eles é en trêis, né?

- É. Um home e duas muié. Tudo já casado e cuns fí já grandim.

- É… finado Zequinha num teve a sorte de vê os neto…

- E agora Joaninha foi sincontrá cum ele lá no céu…

- É Tõe… tá ino simbora nossos amigo véi tudo.

- É isso mermo. Daqui uns tempo nóis tá tudo lá.

- Vira essa boca pra lá ome!

A noite estava fresca e o céu maravilhosamente enfeitado de estrelas como que anunciando o encontro de Zequinha e Joaninha no paraíso. No dia seguinte ela seria sepultada no mesmo lugar onde Zequinha descansava.

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