XXIII – A floração dos umbuzeiros

Depois de tocar a campainha várias vezes, o rapaz já ia desistindo quando abriu-se a porta da casa.

- Pois não?

- É aqui que mora Seu Genário?

- Sim, sou eu mermo. Pode dizê.

- É que eu fui colega de Climério lá na construção e vim saber noticias dele. A turma lá gostava muito dele. Seu Tõe Grande mandou lembranças.

- Ele tá bom. Só num tá mio pruque a mãe dele morreu otro dia. Morreu também uma amiga da famía chamda D. Dozinha. Lá no sertão tá uma morredêra doida de gente.

- O senhor sabe dizer se ele vem mesmo pra cá ainda?

- Quá… vem não. Conde ele saiu daqui dessa veiz foi disposto a num vortá mais.

- Tá bom Seu Genário. Outro dia eu apareço pra gente bater um papo, brigado viu?

O rapaz despediu-se, montou na sua moto e tomou a rua que dá acesso à marginal. O domingo estava findando e a segunda-feira já vinha vociferando sua correria na grande cidade de São Paulo.

O movimento já era intenso naquela construção, apesar de estar muito cedo. Fazia frio e havia muita neblina. O céu turvo impedia parcialmente a claridade do sol, passando a impressão de que  já estava para se por.

- Tõe Grande! Tive lá na casa do Seu Genário procurando notícias do Climério.

- E aí…?

- Ele num vai vim mais pra São Paulo, não. Seu Genário disse que ele tá bom mas muito triste porque perdeu a mãe. Disse que tá morrendo muita gente lá no sertão. Morreu também uma amiga deles…  uma tal de Dozinha Parteira…

O chão se abriu sob os pés de Boi, conhecido em São Paulo como Tõe Grande. O mundo desabou sobre ele.

- Tõe, cê tá sentino alguma coisa?

Boi, nada respondeu, tomou o elevador e foi para a última laje da construção, onde costumava ficar olhando a cidade em silêncio. Sentou-se na extremidade da viga, de forma que seus pés ficavam soltos e sem nenhum apoio. Retirou da sua velha carteira duas fotos que guardava com muito zelo. Uma era de Dozinha, sua mãe; a outra era de Joaninha, a mulher a qual amara em silêncio por toda sua vida. Sim, tirara uma das fotos que o “Onoro das chapa” mandara entregar, um dia antes, daquele fatídico dia em que se tornou um criminoso. Beijou as fotos enquanto corriam-lhe na face duas lágrimas de dor e de adeus a este mundo. Guardou-as novamente e precipitou-se daquelas alturas, dando cabo a sua vida.

Mesclada de fumaça e neblina a cor de São Paulo naquela manhã era fúnebre. Lá em Riachinho, ao contrário, o céu estava limpo e o sol ardia. Destacava-se na vegetação da caatinga o verde dos umbuzeiros em floração.

FIM

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