Depois de tocar a campainha várias vezes, o rapaz já ia desistindo quando abriu-se a porta da casa.
- Pois não?
- É aqui que mora Seu Genário?
- Sim, sou eu mermo. Pode dizê.
- É que eu fui colega de Climério lá na construção e vim saber noticias dele. A turma lá gostava muito dele. Seu Tõe Grande mandou lembranças.
- Ele tá bom. Só num tá mio pruque a mãe dele morreu otro dia. Morreu também uma amiga da famía chamda D. Dozinha. Lá no sertão tá uma morredêra doida de gente.
- O senhor sabe dizer se ele vem mesmo pra cá ainda?
- Quá… vem não. Conde ele saiu daqui dessa veiz foi disposto a num vortá mais.
- Tá bom Seu Genário. Outro dia eu apareço pra gente bater um papo, brigado viu?
O rapaz despediu-se, montou na sua moto e tomou a rua que dá acesso à marginal. O domingo estava findando e a segunda-feira já vinha vociferando sua correria na grande cidade de São Paulo.
O movimento já era intenso naquela construção, apesar de estar muito cedo. Fazia frio e havia muita neblina. O céu turvo impedia parcialmente a claridade do sol, passando a impressão de que já estava para se por.
- Tõe Grande! Tive lá na casa do Seu Genário procurando notícias do Climério.
- E aí…?
- Ele num vai vim mais pra São Paulo, não. Seu Genário disse que ele tá bom mas muito triste porque perdeu a mãe. Disse que tá morrendo muita gente lá no sertão. Morreu também uma amiga deles… uma tal de Dozinha Parteira…
O chão se abriu sob os pés de Boi, conhecido em São Paulo como Tõe Grande. O mundo desabou sobre ele.
- Tõe, cê tá sentino alguma coisa?
Boi, nada respondeu, tomou o elevador e foi para a última laje da construção, onde costumava ficar olhando a cidade em silêncio. Sentou-se na extremidade da viga, de forma que seus pés ficavam soltos e sem nenhum apoio. Retirou da sua velha carteira duas fotos que guardava com muito zelo. Uma era de Dozinha, sua mãe; a outra era de Joaninha, a mulher a qual amara em silêncio por toda sua vida. Sim, tirara uma das fotos que o “Onoro das chapa” mandara entregar, um dia antes, daquele fatídico dia em que se tornou um criminoso. Beijou as fotos enquanto corriam-lhe na face duas lágrimas de dor e de adeus a este mundo. Guardou-as novamente e precipitou-se daquelas alturas, dando cabo a sua vida.
Mesclada de fumaça e neblina a cor de São Paulo naquela manhã era fúnebre. Lá em Riachinho, ao contrário, o céu estava limpo e o sol ardia. Destacava-se na vegetação da caatinga o verde dos umbuzeiros em floração.
FIM