Os olhos deles brilharam de alegria indescritível. A manhã estava ensolarada e os três saíram a rua com suas bicicletas novinhas. Nas calçadas algumas crianças brincavam também com os seus presentes recebidos na noite de Natal, no dia anterior. Outras, apenas contemplavam, e provavelmente sonhavam, sem ter contudo recebido do seu “papai Noel” absolutamente nada. No nosso bairro considerado pobre, a situação ali, há pelo menos vinte anos atrás, era, ainda mais que hoje, crítica sob o aspecto econômico social e eu, para alguns vizinhos era visto como rico pelo fato de estar “bem empregado” e ter até um carro, ainda que velho. Aquela cena, na qual meus filhos brincavam em suas bicicletas, sob o olhar extasiado de outras crianças, perturbou-me a tal ponto que eu pedi que eles entrassem e deixassem para brincar outro dia. Claro que eles protestaram mas, pelo menos naquele dia, eles não saíram mais e ficaram brincando no corredor de entrada da nossa casa.
Naquele momento, lembrei-me que na minha infância, no mês de dezembro, era comum a criançada ir pra o centro da cidade apreciar as vitrines das lojas as quais expunham brinquedos de todos os tipos. Passávamos horas olhando e sonhando. Viajávamos naqueles trenzinhos rodando em círculos, nos carrinhos de ferro e de madeira enfim… Os meus olhos de criança também olhavam extasiados aquilo que só em sonho poderia ter. Também nas manhãs seguintes as noites de Natal, o desfile de brinquedos nas calçadas onde eu morava, revelava as diferenças.
Não podemos no entanto aceitar ou afirmar que “o mundo é assim mesmo”. Que uns tem muito e outros não tem nada e vai ser sempre assim. Antes temos que nos conscientizar que o mundo é de todos nós, os habitantes da terra, que as diferenças não existem pelo fato de os que nada tem serem “incompetentes”. Há de se perguntar se todos tiveram oportunidades iguais. Se o bolo, que é produzido por todos, será repartido para todos ou a mesa estará reservada para alguns restando à grande maioria os farelos do banquete. Há de se perguntar como foram produzidas as riquezas deste mundo, senão pela força do trabalho. E porque a humanidade se transformou numa outra coisa, longe do que se pode considerar “humano”.
Bem, deixemos o discurso para outro dia. Foi um ano de economia para comprar, uma após outra, as três bicicletas que mantive guardadas e escondidas até o Natal. Porem naquele dia não me senti bem. Também não me senti culpado, mas envergonhado de mim, do nosso mundo desigual e injusto. No dia seguinte tomei posse da minha hipocrisia cotidiana e segui em frente como se nada tivesse acontecido. Sim, foi um Natal nem tanto feliz.
03/11/2012
Só meu pai mesmo para ter essa sensibilidade… Aquele Natal foi muito bom para nós, com nossas bicicletas novas… Éramos crianças e, portanto, incapazes de perceber que o brilho no olhar de nossos amiguinhos era o desejo de receber a esperada visita de “Papai Noel”… Tenho certeza que para meu paizinho, foi um Natal nem tanto feliz… Beijos, paizinho… Amo-o para sempre…