O rastro de poeira vermelha deixado para trás pela caminhoneta de Zeca de Dodô, denunciava a pressa dele em chegar a casa de D. Joaninha. O sol estava abrasador e já beirava as 10 horas da manhã. Com o patrão Zeca seguia o seu ajudante conhecido por “Boi” cujo nome verdadeiro era Altamirando, mas, pela sua robustez e natureza fechada, alem de mascar fumo, acabou ganhando este apelido.
- Daqui a pouco ńois chega Boi.
- Humm…
- Falta uns 3 quilômetro, tá pertim, pertim.
- É.
- Que azar de Zequinha, hein?
- Hummm…
Ao chegarem na casa do finado Zequinha, não encontraram muita gente. A fogueira já era cinza e a maioria dos que passaram a noite lá já havia debandado, cada um para seu lado, prometendo que acompanhariam o enterro ou então esperariam o caixão lá no cemitério.
D. Joaninha, acompanhada dos seus três filhos e alguns parentes estava recanteada esperando a decisão do “Seu” Plínio, espécie de autoridade extra-oficial da região, sobre os procedimentos do enterro. Aliás todos estavam muito agradecidos ao “Seu” Plínio que, em nome do prefeito de Santa Maria, havia doado o caixão e contratado o Zeca para o transporte fúnebre.
- D. Joaninha, é chegada a hora, vamo logo que o sumitero é longe . A Sinhora tem alguma coisa que o finado queria levar cum ele?
- Não… xô vê… tem sim: as ispora dele de conde ele era vaqueiro lá pelo Sul. Ô meu Deus, faz tanto tempo. Desde que nóis se conhece ele tinha elas, Seu Plínio.
- Chama os menino e os parente para fechar o caixão. Vamo, vamo logo que o sol tá freveno.
Alguns velhos amigos e parentes se prontificaram a carregar o caixão até a caminhoneta de Zeca de Dodô, estacionada debaixo de um pé de umbu, única sombra encontrada nos arredores do casebre. Era setembro e o umbuzeiro estava florado.
- Quantos dá prá ir em cima, Zeca?
-Uns dez ou quinze fora o defunto, Seu Plínio!
- Fora eu também Zeca, vou muntado na minha mula Baiana e deixa que eu levo a D. Joaninha na garupa.
- Nããããããão!!! Esbravejou alguém. Todos os olhos voltaram-se para Boi. Foi ele quem dissera aquele “não” tão autoritário.
- E pruquê, cabra? Pruquê a viúva num pode ir na minha garupa? Gritou o prepotente Plínio.
- É o interro do pai dos menino. Cuma é que pode a mãe ir num canto e os fi ni outro?
Todos concordaram e se admiraram de ver Boi falar tanto. Boi se dirigiu a D. Joaninha conduzindo-a gentilmente à boléia do carro.
- Aí dá prá sinhora e os menino.
D. Joaninha silenciosamente balançou a cabeça como gesto de agradecimento. Boi lançou seu olhar de desprezo pro Seu Plínio e arremessou no chão sua cusparada amarela com resíduos de fumo que mascava sem parar.
- Tudo pronto, gente? Segura direito aí em riba! Boi, vê se tá bem fechado o fundo! – ordenou Zeca.
- Hummmm…
A poeira cobriu a estrada e Boi viu sumir para trás, com prazer, Plínio e sua mula. As vestes rotas, mulambos, balançavam como bandeiras ao vento, ornamentando os corpos esqueléticos daquele povo miserável. O sol queimava forte e o cortejo fúnebre seguia ao cântico das beatas. Mãos debulhavam as contas dos rosários: “Ave Maria cheia de graça, Senhor é convosco…”. Boi contemplava a caatinga seca passando em velocidade. Nos olhos a mesma sequidão do lugar…
Próximo capítulo dia 18 de fevereiro de 2009
OLA Zé tudo otimo, muita paz estou gostando de floração dos umbuzeiros abraço fraterno, dia 6 se setembro começa a semana espirita sara transmitada pela tvcei.com atreves do sita da união espirita uevc.com.br ok.