A floração dos umbuzeiros – Capítulo III

O rastro de poeira vermelha deixado para trás pela caminhoneta de Zeca de Dodô, denunciava a pressa dele em chegar a casa de D. Joaninha. O sol estava abrasador e já beirava as 10 horas da manhã. Com o patrão Zeca seguia o seu ajudante conhecido por “Boi” cujo nome verdadeiro era Altamirando, mas, pela sua robustez e natureza fechada, alem de mascar fumo, acabou ganhando este apelido.

- Daqui a pouco ńois chega Boi.

- Humm…

- Falta uns 3 quilômetro, tá pertim, pertim.

- É.

- Que azar de Zequinha, hein?

- Hummm…

Ao chegarem na casa do finado Zequinha, não encontraram muita gente. A fogueira já era cinza e a maioria dos que passaram a noite lá já havia debandado, cada um para seu lado, prometendo que acompanhariam o enterro ou então esperariam o caixão lá no cemitério.

D. Joaninha, acompanhada dos seus três filhos e alguns parentes estava recanteada esperando a decisão do “Seu” Plínio, espécie de autoridade extra-oficial da região, sobre os procedimentos do enterro. Aliás todos estavam muito agradecidos ao “Seu” Plínio que, em nome do prefeito de Santa Maria, havia doado o caixão e contratado o Zeca para o transporte fúnebre.

- D. Joaninha, é chegada a hora, vamo logo que o sumitero é longe . A Sinhora tem alguma coisa que o finado queria levar cum ele?

- Não… xô vê… tem sim: as ispora dele de conde ele era vaqueiro lá pelo Sul. Ô meu Deus, faz tanto tempo. Desde que nóis se conhece ele tinha elas, Seu Plínio.

- Chama os menino e os parente para fechar o caixão. Vamo, vamo logo que o sol tá freveno.

Alguns velhos amigos e parentes se prontificaram a carregar o caixão até a caminhoneta de Zeca de Dodô, estacionada debaixo de um pé de umbu, única sombra encontrada nos arredores do casebre. Era setembro e o umbuzeiro estava florado.

- Quantos dá prá ir em cima, Zeca?

-Uns dez ou quinze fora o defunto, Seu Plínio!

- Fora eu também Zeca, vou muntado na minha mula Baiana e deixa que eu levo a D. Joaninha na garupa.

- Nããããããão!!! Esbravejou alguém. Todos os olhos voltaram-se para Boi. Foi ele quem dissera aquele “não”  tão autoritário.

- E pruquê, cabra? Pruquê a viúva num pode ir na minha garupa? Gritou o prepotente Plínio.

- É o interro do pai dos menino. Cuma é que pode a mãe ir num canto e os fi ni outro?

Todos concordaram e se admiraram de ver Boi falar tanto. Boi se dirigiu a D. Joaninha conduzindo-a gentilmente à boléia do carro.

- Aí dá prá sinhora e os menino.

D. Joaninha silenciosamente balançou a cabeça como gesto de agradecimento. Boi lançou seu olhar de desprezo pro Seu Plínio e arremessou no chão sua cusparada amarela com resíduos de fumo que mascava sem parar.

- Tudo pronto, gente? Segura direito aí em riba! Boi, vê se tá bem fechado o fundo! – ordenou Zeca.

- Hummmm…

A poeira cobriu a estrada e Boi viu sumir para trás, com prazer, Plínio e sua mula. As vestes rotas, mulambos, balançavam como bandeiras ao vento, ornamentando os corpos esqueléticos daquele povo miserável. O sol queimava forte e o cortejo fúnebre seguia ao cântico das beatas. Mãos debulhavam as contas dos rosários: “Ave Maria cheia de graça, Senhor é convosco…”. Boi contemplava a caatinga seca passando em velocidade. Nos olhos a mesma sequidão do lugar…

Próximo capítulo dia 18 de fevereiro de 2009

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One Response to A floração dos umbuzeiros – Capítulo III

  1. JOÃO LUIZ says:

    OLA Zé tudo otimo, muita paz estou gostando de floração dos umbuzeiros abraço fraterno, dia 6 se setembro começa a semana espirita sara transmitada pela tvcei.com atreves do sita da união espirita uevc.com.br ok.

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